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Cacofonia

Uma cacofonia enche-me os ouvidos como água de uma piscina onde um sol abrasador me força a mergulhar e dela sou impedido de sair por um vento cortante. São vozes de mulheres e homens, de coisas que passam e cães que, de ladradores, ladram, estrepitosas umas, basais outras, ora em confronto ora em conluio; são vozes de si sobre si, raramente vozes de outros. Diz o tato, em voz de tato, que ‘…ela dite atim…’, e lamentavelmente levo a mão à boca para não a soltar, e tapo o nariz para não o fungar. Lamento o tato e o seu interlocutor feio, atrás de uns óculos lamentavelmente feios, e lamento não ser o tato, timples na tua timpliticade tátil de palato impedido e livre de ser, sem compromisso filosófico, nem censura intelectual. Desprezo-me por saber que os €49,50 da mistela em boião, ou pó, ou pasta solúvel não me permitirão emagrecer; censuro-me por perceber que a vizinha é má porque eu sou mau para ela; castigo-me emocionalmente por ter por certo que se aquele enganou os irmãos nas part...

De partida, chegada

Perante a inevitabilidade da decisão tomada, aproximou-se da enorme lareira aberta. Atirou de um lanço metade do Brandy que tinha no copo para o fogo logo o consumir numa chama azul, sem rasto nem história. Olhava o fogo sem chama no olhar, mantinha o braço direito esticado na direção do fogo, palma aberta, voltada para baixo, sem experimentar o calor. Vivera seco toda a sua vida, seco de vontade, seco de afeto, seco de propósito. Cuidava no fogo um amigo que o secaria ao extremo, sancionando a sua decisão. Aproximou-se um pouco mais, resistindo ao fogo que o aquecia cada vez menos e, fixando o olhar no moirão de ferro ornado com duas cabeças de cão, percebeu que estas se moviam para o fixar. Será artimanha do ar quente? Será partida do Brandy ou a sua mente cansada que o fazem ver coisas que não existem? Ainda assim, os cães fitavam-no. Fixamente. Sem os rodeios de olhares cruzados por acaso. E dos seus olhos mortos escorria uma luz amarela; e das suas bocas assanhadas palpava um gost...

Passa um homem…

Passa um homem que julgo conhecer bem sem saber bem quem é. É alto o suficiente para o seu olhar estar acima de quase todos os olhares; mas não tão alto o suficiente para ser o mais alto. Talvez não haja o mais alto pois que, na verdade, apenas um poderá dizer: sou o mais alto. E, mesmo assim, poderá não ter disso conhecimento, impedindo-o de reclamar tão galardão. Havendo ou não um mais alto que todos os outros, esse um, não era ele. Era alto o bastante para que se sentisse acima dos demais, mas não tanto que, de forma cada vez mais frequente, alguém mais alto que ele passasse por si e o lembrasse que os havia mais altos e que para esses gigantes, ele estaria entre os mais baixos da Terra. Era magro; era. E aí, a latitude de conceito estava bem mais diminuída. Era magro, ponto final; e alto, ponto final. Não era bonito, mas também não era feio. Poderia até dizer-se que não assustava ninguém. Talvez assustasse uma criança estranhona. Mas essas, tudo assusta. Tudo menos as boas mães,...

Partia de um pensamento vazio

Partia de um pensamento vazio, para um universo cheio de nada Num café decorado a frio, meio de clientes de expressão velada Tomaria o autocarro ou a nave espacial? partiria pelo seu pé Por entre ruas e estrelas; fenomenal! viagem de procura da fé Assalta a dúvida a cada esquina, para lá ou por aqui? Ainda me lembro dela tão pequenina, papá: chichi E ele mais crescido por dentro, mas por fora sempre menino Solta tantas palavras ao vento, para mudar o mundo viperino São tantos os sóis e tantas as luas que nos cruzam o olhar Tantos os passos por tantas ruas que me canso de andar E lá ao fundo ela aparece, em lampejos de Diana e Atena Um farol no mundo que guarnece o reino da fantasia plena

Transformação

Então diz-me lá; consegues transformar-te no que quiseres? Sim , consigo; mas com uma restrição importante. Qualquer coisa? Qualquer coisa, não; qualquer ser vivo; mas, como já te disse, com uma restrição importante. Pois , se te transformasses numa cómoda, iria ser difícil teres força de vontade para voltares à tua agradável pessoa. Sim , seria complicado. Posso pedir-te que te transformes nalguma coisa? Podes . Ok ; transforma-te numa borboleta; daquelas grandes, de um azul iridiscente. Aí é que está; em borboleta não posso. Mas disseste que te podias transformar em qualquer coisa. Sim , e posso; mas é aqui que entra a restrição importante; deves previamente compreender que a minha transformação é feita ao nível molecular; ou seja, não se trata de uma metamorfose ou uma habilidade de um qualquer extraterrestre dos filmes de ficção científica. Então ? A minha transformação implica uma reorganização integral de todas as moléculas do meu organismo; o que quer dizer, para responde...

– Dás-me Lume?

– Dás-me Lume? No momento em que os olhos se tocaram Arregalados, fizeram os corações subir ao cume Das suas existências vazias Onde os desejos não se esgotam nem param Onde todas as fogueiras são frias Onde os sentidos (sós) apenas exclamam E lá do alto sonharam Com uma vida repleta concreta discreta Cheia de pequenas alegrias Unidas por uma paixão secreta Polvilhada de ínfimas fantasias Pequenos blocos do imenso mundo que imaginaram Era o futuro naquele tocar de olhos Era um trazer para casa flores aos molhos, aos molhos Os corações bailavam Os estômagos torciam Os sexos pulavam Os lábios abriam Era um universo privado Era um mundo apenas deles os dois E depois? – Desculpa, Não fumo. – Obrigado. Então os corações tornaram ao mundo vazio e a disfarçada melancolia da discoteca entrou-lhes novamente pelos ouvidos e a batida voltou a suspendê-los como fios de marioneta… Então ela voltou-se, e com o braço esticado e a mão ainda no ombro do grupo com que viera: ...

Ninguém reparou

Ninguém reparou que precisamente no instante em que ela nascia, o planeta Júpiter, sem razão aparente e sem que ninguém,  astrólogo ou astrónomo  o tivesse antecipado, colapsou sobre o seu imenso peso e se transformou numa pequenina estrela azul, tornando,  mais os seus sessenta e três satélites,  o nosso sistema solar num sistema binário, menos extraordinário do que até então tinha sido e alterando de forma radical a paisagem celestial que contemplamos, para indiferença de poetas e pescadores e desprezo de aves migradoras e amantes do alheio e olvido de mitólogos. Ninguém deu conta que quando ela tomou a sua primeira vacina, os eucaliptos da Austrália ficaram vermelhos por duas semanas originando, outras duas semanas depois, que todos os coalas que ociosamente trepavam essas árvores e comiam suas folhas, adquirissem um tom rosa até ao final daquele ano, confundindo-se e multiplicando-se com os flamingos das árvores e, em última instância, dando origem a uma nova...
Faz hoje 30 anos que morreu António Variações. Fosse vivo e seria septuagenário. Ainda sei as canções de cor, ainda me emociono com a sua ingenuidade. Variações abriu uma porta numa altura em que tudo era cinza. Tivesse continuado a viver e a cantar e não haveria fome, nem dívida, nem cortes, nem carros cinzentos a perder de vista. Viva António Variações, VIVA ! ! ! ! ! !

SOL

E o Sol fala de?… Muito poucos são aqueles que vejo nascer. Quase todos nascem debaixo de telha. Quando não estou a ver, mas está ela, aquela que namoro há milénios num bailado incessante, também quase todos nascem debaixo de telha. Só os mais desprevenidos, os mais apressados ou os mais expostos dos expostos, eu vejo nascer. Dado que poucos são os que vejo nascer, tu, um bem nascido, não foste excepção: não te vi nascer. Apenas algumas semanas depois de nasceres e te assumires como indivíduo te vi pela primeira vez, e tu me viste a mim no que seria mais uma primeira vez de muitas primeiras vezes. Logo gostei de ti e imaginei, ao iluminar-te a face que, um dia, dedicarias a tua vida a fazer com que também eu nascesse, renascendo sobre uma nova luz. Uma luz que abriria portas, que forjaria lutas, que anteveria conquistas. Uma luz que no teu crepúsculo se recusava a esmorecer, mesmo perante o que parecia o recuar em toda a linha da tua vontade ao direito de todos dizerem: “–Ele nasceu p...

Triste é o poeta por se confinar ao homem

Triste é o poeta por se confinar ao homem. Preso está o homem por ter em si um poeta. Que te encaram, homem e poeta, com diferentes olhos. Uns para olhar e outros para te ver, Uns para te querer e outros para te tomar, Ambos para dizer que te amam. Com beijos nos calas, com abraços baixas nossos braços. O teu amor mata-nos, faz-nos esquecer de nós. És o doce jugo que plácidos envergamos. És o macio cajado que meigamente nos impele. És a rutilante argola, que nos guia da confortante solidão. Pois é o teu amor que nos mantém vivos. De ti, em ti, por ti. Só tu, pelo nosso amor, és o esteio da razão. Farol brilhante, Aquecendo os frios penedos, Iluminando as ondas, Relevando os escolhos, Desvelando os sentimentos mais profundos. Quando longe de ti estamos, E somos apenas homem e poeta, É em ti que pensamos, É por ti que a vida se completa.

Diferenças

Sabes a diferença, meu amor, entre ser e estar? Como passámos do que fomos ao que somos. A partir de que momento nos tornámos nós e deixámos de estar sós. Sabes a diferença entre a sede e o consolo, entre a fome e a saciedade? Ainda te lembras como distinguir entre a vontade e o desejo, o vazio de perder e a felicidade de encontrar. Sabes ainda, meu amor, distinguir entre os beijos meus e os beijos teus? O tempo fez-nos outros. O tempo, ora leve, ora pesado, foi tempo e deu-nos tempo para continuarmos a fazer o nosso próprio tempo e forma intemporal. Parece que nunca tanto, meu amor, passou em tão pouco tempo. Ainda te lembras, meu amor, de fecharmos os olhos e vermos como seria o mundo?

O que eu gosto de ver o mar

O que eu gosto de ficar a ver o mar Com as ondas a quebrar devagar Num infinito rodopio de carrossel Que nos leva o cabelo e arrepia a pele Está muito cheio este ar deste mar Do ruído das ondas infinitas a cavar Covas e peelings na areia que aguenta Com complacência e fugir não tenta Por vezes é Jah que espraia claridade De norte a sul espalhando felicidade Outras chega de Asgaard o encanto Que cobre a praia com cinzento manto São esses os dias de esplendor tão manso Onde o moço da cidade sonha seu descanso Rodeado de prédios velhos e sem história Aquece-o a praia que guarda na memória

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –10–

A noite permanecia tão escura como misteriosa, o nevoeiro tão denso como uniforme, propiciando o surgir de todo o tipo de receios, medos e alarmes. Mais do que a visão assustadora de uma catástrofe eminente ou a face terrifica de um malfeitor como os que havia deixado para trás ou mesmo o galope temível de um animal, era a ausência de qualquer estímulo sensorial que o deixava, a princípio, incomodado e, pouco depois, e em crescendo, atemorizado. Se nada fizesse, entraria em breve num estado paranóico, condição psíquica contraproducente ao desígnio que o movia. O facto de nada ver, nada ouvir, não sentir sequer o fresco da noite na face ou do nevoeiro nos ombros, afectavam-no pela primeira vez. Sentia-se perdido e desperado e olhava e farejava e palpava em volta por referenciais, pistas, alarmantes que fossem, que lhe tirassem da alma a sensação de estar sozinho no mundo. Mais do que um tremor de terra, um assassino com um machado em riste ou um leão correndo para mim de boca aberta, er...

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –9–

A dada altura, adiantada a caminhada, o nevoeiro deu mostras de querer levantar. Não se ia embora, apenas se tornava menos denso, o suficiente para o deixar ver as bermas da estrada com maior nitidez. Nelas, acocorados junto a cada postalete reflector, aquilo a que, apenas por seus olhos grandes e encovados reflectirem mais que os postaletes reflectores, tomaríamos como pessoas, pois por estarem tão mirrados e tão cheios de chagas, veríamos como cão sarnento, despejo ilegal, saco d roupa velha atirado de um carro; um homem, uma mulher, uma criança, um velho. Eram só quatro, mas muitos mais lhe pareciam, pois grande era a sua miséria, e tão presente era sua a dor que quis acometer-se do seu pesar, tratar as suas chagas, lavar-lhes a cara e dar-lhes de comer, mas não conseguiu. Antes os viu todos imundos, todos desdentados, todos burros, todos maus. Como surgiram assim, de repente? Um desses vermes nojentos, uma mulher a cheirar mal, desdentada, com peladas no que foi cabelo preto de ...

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –8–

Conduzia muito concentrado. As duas mãos no volante, olhos presos à estrada em frente. Só a deixavam quando olhava pelo retrovisor, para ver a estrada atrás. Olhava muito pelo retrovisor. O que era de estranhar: Não encontras o que procuras no meio da noite, numa estrada que em não passava um único carro em horas ou dias, sei lá, depois daquilo das onze horas. Quanto tempo terei lá estado? Estiveste lá metido três dias. Pois estive; vejo agora que qualquer um deles tomou nove pequenos almoços e três snacks; usaram a casa de banho várias vezes, mas em três dessas vezes demoraram significativamente mais tempo. Mas não dormiam. Não; alturas havia que pareciam olhar para lá das luzes, como se procurassem a estrada. Mas nunca dormiam. Pensa melhor; se pareciam não dormir é porque andavam adormecidos. Sim; dormiam o tempo todo; nunca acordaram. Uma acordou; que lhe fizeram? Se não sabes, não sei. Pois. Sais aqui. Continuas a conduzir apesar de tudo. Sim; apesar de tudo, continuo. Obrigado e...

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –7–

Não houve comoção (aquela da agitação ou abalo; não a do pesar ou pena), não vieram carros com pirilampos azuis em seu encalço, nada de cenas de perseguição em que rouba um carro a um pacato cidadão que prefere parar e deixar-se arrancar do assento do condutor a guinar e seguir viagem, nem fugas audazes por condutas de descarga ou simplesmente, deitar a correr a correr até os deixar todos para trás. Imagina que a ausência da polícia em seu encalço se fique devendo à surpresa do homem de fato, homem acostumado a que acatem suas ordens sem reparo ou viés; ao chegar acompanhado da polícia e não o encontrar, talvez tenha ficado petrificado, incapaz de compreender sua atitude. Os tiras, na ausência de prevaricador e de explicação para a razão para a qual foram chamados e, sendo onze horas, terão tomado um rápido café da manhã, com suco e bolinhos, pelo trabalho da deslocação, e feito uma admoestação ao homem de fato antes de regressarem ao giro. Se perguntou também se o poder da polícia ou ...

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –6–

Aceitei. Pode até ser noite para lá das luzes criadoras deste ambiente de permanentes onze horas da manhã. Posso continuar a achar que é noite, mesmo estando perante o atarefado local, mas o que se come ao pequeno almoço, seja uma ou duas sandes, acompanhadas de leite, chá ou iogurte, caem bem a qualquer hora do dia. Na verdade, a refeição é a mesma: um pão com manteiga e uma chávena de leite às 8h00 é, claro está, pequeno almoço; um sumo de laranja com um bolito seco lá para as 11h00 é mata-bicho; uma meia de leite e uma torrada às 16h30 é lanche; e uma tosta de queijo com iogurte às 10h00 é, dizem os miúdos, lanchinho da noite; ceia, dirão os adultos. Ora, qualquer uma destas pequenas refeições pode ser tomada como pequeno almoço, carece apenas que se goste e queira, daí que, sendo para eles onze da manhã e para mim sei lá quantas da noite, um pequeno almoço, fosse ele isso ou mata-bicho ou lanchinho da noite ou ceia, me cairia muito bem. Sirva-se. Tem ovos e salsichas, iogurtes e su...

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –5–

Não era uma estação de serviço. Era uma sala, sem paredes, que potentes mas invisíveis fontes luminosas recortavam do resto, que era a noite, como tal nada ou tudo, ocupada com secretárias dispostas em forma de ilha, formando grupos de oito postos de trabalho por cada ilha. Estas por seu turno estavam dispostas em quatro colunas que começavam logo na berma da estrada e se prolongavam noite a dentro aparentemente sem fim. Havia num dos lados, por cada quatro filas de ilhas, fazendo as contas, dezasseis ilhas e 128 postos de trabalho, três portas; portas apenas, sem paredes que lhes dessem firmeza ou propósito. Duas seriam casas de banho, separadas de acordo com o género; uma terceira com o nome de alguém gravado no vidro do painel superior. Ao contrário da estação de serviço, aqui havia bulício. Gente matraqueava os teclados dos computadores que dominavam cada secretária; tocavam telefones e pessoas falavam por eles de forma ora elegante e pausada, entremeando o discurso com sorrisos e ...

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –4–

De volta à estrada, à noite e ao nevoeiro, calcorreava de novo o separador central. Andando absorto, pensava em como se manar, em como se baldar. Não será a vontade de se manar própria contradição, pois que manar a vontade é verte-la para que se se evapore, se extinga; ou, se não se extinguir, deixa pelo menos de nos pertencer para se tornar fazenda de outrem. E baldar; é preciso querer baldar-se. Baldar-se é uma entre várias opções. Aquele é baldas: porquê? não sabe mais?; não: apenas é sua vontade ser baldas. Percebia, se bem que de forma difusa e por ora incapaz de expor em discurso que o caminho que sentia já ser o seu dever seguir, acarretava, talvez mais do que qualquer outro, ponderada decisão e grande dose do coragem. O que mais do que aparentava ser contraditório com o propósito. Isto é, se o fim era o de abandonar-se, já a decisão de o fazer nada tinha de abandono ou casualidade. De modo que temia não poder seguir o conselho do pequeno homem por duas razões: a primeira porque...

Haverá lições a reter da vida?
 Pode aprender-se com o passado?
 Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? -3-

A estação de serviço estava deserta. Nem carros, nem camiões a abastecer ou estacionados; apenas um gingle soprava pelos altifalantes colocados no alto das colunas que sustinham a cobertura das bombas desfazia a noção de que se tratava de um posto abandonado. A porta estava aberta, o que é estranho; pois o que seria de esperar seria um funcionário com cara de sono/medo/fastio (riscar o que não interessa) atras de um vidro à prova de bala, interagindo com os clientes por um postigo ou gaveta de vaivém. Não havia clientes, tão pouco bandidos ou ladrões, o que não é a mesma coisa. Na loja, coisas de loja, das que se vendem, das que expõem as que se vendem, máquinas que aquecem ou arrefecem as coisas que se vendem quentes ou frias e, ao balcão, melhor, no balcão, um homem muito pequeno com um fraque velho, cartola e guarda-chuva. Quando digo pequeno, não digo pequenito como um menino, digo aí com um palmo, vinte e cinco centímetros, no máximo. Tens um telefone? Para que queres tu um telefo...