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Aos olhos, apenas os olhos

Quando alguém procura desesperadamente o amor, até se esquece que as sereias são monstros. – Inspirado em Goethe

Portas fechadas

Em 1919, um cozinheiro do hotel Ritz de Paris tenta, em vão, participar na conferência onde se debatia a criação da Sociedade das Nações, apresentando uma proposta para a autodeterminação do povo. Era Indochinês, de seu nome Ho Chi Minh. aqui
" Quem não é capaz de ser pobre, não é capaz de ser livre ." (Vitor Hugo) " Estaremos dispostos a ser pobres para podermos ser livres? "

Pelas Marias

Maria Arnaldina vivia no que resultou de uma loja adaptada a habitação de uma vivenda revestida a azulejo. Deixou-lha a mãe que a obteve por graça de longos anos de trabalho quase escravo para os já falecidos donos da vivenda revestida a azulejo. O patrão da mãe de Maria Adosinda, último do casal a falecer, em estertor e de consciência pesada, lavrou que a dita empregada de lavoura e cálice para todo o pau, haveria de viver onde sempre vivera e aprouvera ao dono da vivenda revestida a azulejo. Mais lavrou que igual proveito gozaria Maria Alzira e, no leito de morte, ele, agonizando por coice de vaca, ela já fria por se arreliar tanto ao ver o coração do marido assim exposto por via da patada, fez o seu único filho jurar respeitar a promulgada decisão. Tínhamos então: Maria Adelina na loja convertida e Bento, por cima, partilhando a vivenda revestida a azulejo. Apesar do falatório da aldeia inerente à sobreposição das habitações, proximidade das idades e estado civil, muito os separava....

Hoje acordei com vontade de me levantar

Ao sentir-me desperto, Acelerado pela luz que em mim entrava vinda da janela cuja persiana ficou em enrolado esquecimento, Cresceu em mim uma vontade tumescente que me impelia para longe daquela doçura que é o conforto absoluto de uma cama dormidinha, Onde a noite termina com um resignado regresso à vida. Agarrei-me a ela e para ela me voltei, Mas ela já lá não estava, Desaparecida, Deixou fria, A sua alma levantada. Frios estavam também os lençóis do lado dela, E frio estava o saldo da sua cabeça na almofada, Voltei-me de barriga para o ar e olhei a janela, Desanimado com a perspectiva de a perder para sempre: o seu sorriso; os seus beijos; os seus abraços; a nossa vida partilhada. Restava-me a vontade, De me levantar. Queria saber as horas, Saber qual a extensão numérica do desvio ao ritmo habitual, Hábitos analíticos enraizados na mais poética e madraça das almas. Mas não conseguia abrir os olhos. Pesavam-me as pálpebras cansadas, ...

19. O lago

A estrada era agora um grande lago azul e sereno. A berma era agora um relvado que de tão bem tratado se via muito verde e uniforme e envolvia o lago com largueza e frescura. Por sua vez, esta era orlada intermitentemente por bancos de jardim, candeeiros esguios de duas lâmpadas e pequenas edificações em pedra, sem função aparente que não fosse a de propiciar, às gentes e aos bichos, poiso para contemplação do lago. Os patos, as gaivotas, as narcejas, os gansos e os cisnes, os pardais e os piscos nas árvores, ora pastavam, ora nadavam, ora voavam em círculos, ora saltavam voando de árvore em árvore, ora dormitavam pousadas na relva, assentes num ou dois pés. O sol era agora tudo e a tudo e a todos afogava com a sua luz. Ele, deitado num banco, braço por cima da cara bloqueando a luz do sol, uma das pernas esticada no banco, a outra, pendente, dormia sentindo-se acordado. Sem que se apercebesse quando ou há quanto tempo, sentiu o peso de um cisne que pousara sobre o seu peito. Levan...

14. O padeiro

Adiante, um brilho áureo emanava da escuridão. Aproximando-se, pode ver detalhadamente a origem de tal fulgor. O chão que pisava, os riscos que o delimitavam, a mansão que ali se impunha – suas paredes e janelas, telhado e caleiras, muros e gradeamentos, relva e arbustos do jardim – eram feitas de puro ouro. Ouro seria banal, pois era trabalhado em filigrana delicada. E suas reentrâncias recheadas a safiras, rubis, diamantes. Até o rouxinol que, desperto, se preparava para docemente nos despertar, era de ouro e jóias. A corsa aninhada junto ao alecrim de ouro, de ouro era, matizada de platina. O sapo junto ao charco pintalgado de nenúfares feitos de rubis, tinha olhos de esmeralda e língua de opalas. Os ovos no ninho do pisco pertenceram a um tal Nicolau e, ninguém sabe como ali foram parar. Que formidável riqueza vive nesta casa! Que esplendor emana. Que fortuna antiga a deterá? Que génio foi capaz de produzir tamanha acumulação? Sai ao alpendre um homem, pouco mais que um rapaz, d...

Lições

11. Percorria a estrada com a cabeça de João Batista em cima da minha quando nos salta ao caminho um cão. Um diabo dum cão que nem era grande nem era pequeno e que ria à gargalhada. Não rosnou, ladrou ou ferrou, limitou-se a rir desabridamente enquanto apontava com a pata a cabeça do meu compagnon de route como quem escarnece e diz ser aquilo o mais ridículo que já viu na sua longa vida de seis ou sete anos. Por me deter, espantado com o duplo comportamento do animal, rir-se de nós, e por ser um cão que ri, ele aproveitou e sentou-se logo ao meu lado, desta feita como se sentam os cães e, enquanto amansava o riso, limpava as lágrimas com as patas e abanava negativamente o focinho. Era um cão rafeiro, de pelo baio muito curto, com as patas e a ponta da cauda brancas. Tinha as orelhas quebradas e caídas para a frente e olhos castanhos. O riso expunha lábios negros, assim como o dos leões. Mas sem os calafrios que felinos lábios causam a quem deles se avizinha, pelas razões óbvias, o cont...