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Heróis

Todos os heróis são involuntários Sai-lhes da mão a história Porque ao destino são contrários Alvo de honra e memória Por alto erguerem a sua espada Os cobrem de fama e glória São como vela ao vento enfunada Aríete ao destino lançado Findo o vento mais são que nada É o vento o fado dourado Que resgata o mortal do anonimato Seu destino é assim lavrado Retoma a vida em seu vulgar fato E vê todos os dias iguais E murcha e desespera em recato Junta-se aos homens banais Que trilham sempre pelo carreiro Sonhando voltar a ser mais Perto da morte e pela vida desfeito Percebe o Herói que a grandeza Lhe caiu na mão não se fez no peito — Chora herói nesta reta final Vê como tão mais feliz serias Vivendo como simples mortal Suas simples dores e alegrias Como saberia tão bem o vinho Tão fresco de prazer te encheria Se de mortal fosse teu caminho Sem a Ambrósia que tocaste um dia Se os Deuses não te pedissem que por uma vez Provasses o Paraíso Nada te seria...

19. O lago

A estrada era agora um grande lago azul e sereno. A berma era agora um relvado que de tão bem tratado se via muito verde e uniforme e envolvia o lago com largueza e frescura. Por sua vez, esta era orlada intermitentemente por bancos de jardim, candeeiros esguios de duas lâmpadas e pequenas edificações em pedra, sem função aparente que não fosse a de propiciar, às gentes e aos bichos, poiso para contemplação do lago. Os patos, as gaivotas, as narcejas, os gansos e os cisnes, os pardais e os piscos nas árvores, ora pastavam, ora nadavam, ora voavam em círculos, ora saltavam voando de árvore em árvore, ora dormitavam pousadas na relva, assentes num ou dois pés. O sol era agora tudo e a tudo e a todos afogava com a sua luz. Ele, deitado num banco, braço por cima da cara bloqueando a luz do sol, uma das pernas esticada no banco, a outra, pendente, dormia sentindo-se acordado. Sem que se apercebesse quando ou há quanto tempo, sentiu o peso de um cisne que pousara sobre o seu peito. Levan...

14. O padeiro

Adiante, um brilho áureo emanava da escuridão. Aproximando-se, pode ver detalhadamente a origem de tal fulgor. O chão que pisava, os riscos que o delimitavam, a mansão que ali se impunha – suas paredes e janelas, telhado e caleiras, muros e gradeamentos, relva e arbustos do jardim – eram feitas de puro ouro. Ouro seria banal, pois era trabalhado em filigrana delicada. E suas reentrâncias recheadas a safiras, rubis, diamantes. Até o rouxinol que, desperto, se preparava para docemente nos despertar, era de ouro e jóias. A corsa aninhada junto ao alecrim de ouro, de ouro era, matizada de platina. O sapo junto ao charco pintalgado de nenúfares feitos de rubis, tinha olhos de esmeralda e língua de opalas. Os ovos no ninho do pisco pertenceram a um tal Nicolau e, ninguém sabe como ali foram parar. Que formidável riqueza vive nesta casa! Que esplendor emana. Que fortuna antiga a deterá? Que génio foi capaz de produzir tamanha acumulação? Sai ao alpendre um homem, pouco mais que um rapaz, d...

Lições

11. Percorria a estrada com a cabeça de João Batista em cima da minha quando nos salta ao caminho um cão. Um diabo dum cão que nem era grande nem era pequeno e que ria à gargalhada. Não rosnou, ladrou ou ferrou, limitou-se a rir desabridamente enquanto apontava com a pata a cabeça do meu compagnon de route como quem escarnece e diz ser aquilo o mais ridículo que já viu na sua longa vida de seis ou sete anos. Por me deter, espantado com o duplo comportamento do animal, rir-se de nós, e por ser um cão que ri, ele aproveitou e sentou-se logo ao meu lado, desta feita como se sentam os cães e, enquanto amansava o riso, limpava as lágrimas com as patas e abanava negativamente o focinho. Era um cão rafeiro, de pelo baio muito curto, com as patas e a ponta da cauda brancas. Tinha as orelhas quebradas e caídas para a frente e olhos castanhos. O riso expunha lábios negros, assim como o dos leões. Mas sem os calafrios que felinos lábios causam a quem deles se avizinha, pelas razões óbvias, o cont...

O que eu gosto de ver o mar

O que eu gosto de ficar a ver o mar Com as ondas a quebrar devagar Num infinito rodopio de carrossel Que nos leva o cabelo e arrepia a pele Está muito cheio este ar deste mar Do ruído das ondas infinitas a cavar Covas e peelings na areia que aguenta Com complacência e fugir não tenta Por vezes é Jah que espraia claridade De norte a sul espalhando felicidade Outras chega de Asgaard o encanto Que cobre a praia com cinzento manto São esses os dias de esplendor tão manso Onde o moço da cidade sonha seu descanso Rodeado de prédios velhos e sem história Aquece-o a praia que guarda na memória

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –10–

A noite permanecia tão escura como misteriosa, o nevoeiro tão denso como uniforme, propiciando o surgir de todo o tipo de receios, medos e alarmes. Mais do que a visão assustadora de uma catástrofe eminente ou a face terrifica de um malfeitor como os que havia deixado para trás ou mesmo o galope temível de um animal, era a ausência de qualquer estímulo sensorial que o deixava, a princípio, incomodado e, pouco depois, e em crescendo, atemorizado. Se nada fizesse, entraria em breve num estado paranóico, condição psíquica contraproducente ao desígnio que o movia. O facto de nada ver, nada ouvir, não sentir sequer o fresco da noite na face ou do nevoeiro nos ombros, afectavam-no pela primeira vez. Sentia-se perdido e desperado e olhava e farejava e palpava em volta por referenciais, pistas, alarmantes que fossem, que lhe tirassem da alma a sensação de estar sozinho no mundo. Mais do que um tremor de terra, um assassino com um machado em riste ou um leão correndo para mim de boca aberta, er...

O Guardador de Porquês

Jacinto guardava os porquês que encontrava nas pessoas nos acontecimentos nos dias e nas noites. Dominava a magia de ver para lá do óbvio e do circunstancial apresentando-se-lhe o porquê das coisas de forma tão clara e linear como ao mago é simples agitar lenços e deles fazer surgir brancas pombas que voando espantam a assistência. Como se não fosse suficiente tamanho dom Jacinto era capaz de neles pegar e guardar catalogados num frasco de fino cristal que trazia consigo. Tão fino e delicado era o cristal que tudo deixava passar sem mácula de distorção provocada por espessura ou concavidade irregulares. Tão pequeno era que nele tudo cabia sem que nada se perdesse num canto escuro ou numa gaveta emperrada. Os porquês aí guardados davam a Jacinto um á-vontade e postura únicos entre os homens. Tamanha biblioteca em conjunto com os porquês dos que o rodeavam e os seus próprios porquês desvendados permitiam-lhe ver mais longe e entender o que para outros não passava de extemporaneidade ou s...