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Aos olhos, apenas os olhos

Quando alguém procura desesperadamente o amor, até se esquece que as sereias são monstros. – Inspirado em Goethe

Portas fechadas

Em 1919, um cozinheiro do hotel Ritz de Paris tenta, em vão, participar na conferência onde se debatia a criação da Sociedade das Nações, apresentando uma proposta para a autodeterminação do povo. Era Indochinês, de seu nome Ho Chi Minh. aqui

De partida, chegada

Perante a inevitabilidade da decisão tomada, aproximou-se da enorme lareira aberta. Atirou de um lanço metade do Brandy que tinha no copo para o fogo logo o consumir numa chama azul, sem rasto nem história. Olhava o fogo sem chama no olhar, mantinha o braço direito esticado na direção do fogo, palma aberta, voltada para baixo, sem experimentar o calor. Vivera seco toda a sua vida, seco de vontade, seco de afeto, seco de propósito. Cuidava no fogo um amigo que o secaria ao extremo, sancionando a sua decisão. Aproximou-se um pouco mais, resistindo ao fogo que o aquecia cada vez menos e, fixando o olhar no moirão de ferro ornado com duas cabeças de cão, percebeu que estas se moviam para o fixar. Será artimanha do ar quente? Será partida do Brandy ou a sua mente cansada que o fazem ver coisas que não existem? Ainda assim, os cães fitavam-no. Fixamente. Sem os rodeios de olhares cruzados por acaso. E dos seus olhos mortos escorria uma luz amarela; e das suas bocas assanhadas palpava um gost...
" Quem não é capaz de ser pobre, não é capaz de ser livre ." (Vitor Hugo) " Estaremos dispostos a ser pobres para podermos ser livres? "

Pelas Marias

Maria Arnaldina vivia no que resultou de uma loja adaptada a habitação de uma vivenda revestida a azulejo. Deixou-lha a mãe que a obteve por graça de longos anos de trabalho quase escravo para os já falecidos donos da vivenda revestida a azulejo. O patrão da mãe de Maria Adosinda, último do casal a falecer, em estertor e de consciência pesada, lavrou que a dita empregada de lavoura e cálice para todo o pau, haveria de viver onde sempre vivera e aprouvera ao dono da vivenda revestida a azulejo. Mais lavrou que igual proveito gozaria Maria Alzira e, no leito de morte, ele, agonizando por coice de vaca, ela já fria por se arreliar tanto ao ver o coração do marido assim exposto por via da patada, fez o seu único filho jurar respeitar a promulgada decisão. Tínhamos então: Maria Adelina na loja convertida e Bento, por cima, partilhando a vivenda revestida a azulejo. Apesar do falatório da aldeia inerente à sobreposição das habitações, proximidade das idades e estado civil, muito os separava....

O pé direito

Enquanto descia a escadaria, olhava os pés. Ora o esquerdo; ora o direito. E se o pé esquerdo lhe parecia um pé esquerdo –como o direito lhe parecia esquerdo quando se olhava nua ao espelho, chegando o olhar aos pés como que em fim de viagem, iniciada nos olhos e com passagem pela púbis desértica– e se o pé esquerdo lhe parecia um pé esquerdo, o pé direito não lhe parecia um pé direito. Inicialmente procurou não pensar nisso. Depois optou por não olhar para os pés, sobretudo o direito –tal como fazia com o peito, que nunca o olhava desnudo por ter uma ligeira assimetria, sendo isso razão para apenas o olhar quando o peito já se encontrava acomodado no soutien– mas logo apossou-se dela uma sensação que, em crescendo, começou pela estranheza e culminou na repulsa. O seu pé direito não lhe parecia um pé direito. Tão pouco já lhe parecia um pé esquerdo visto pelo viés do espelho. Continuava a descer as escadas e o seu pé era, a cada passo, cada vez menos seu. Quem lhe terá trocado o pé dir...

Passa um homem…

Passa um homem que julgo conhecer bem sem saber bem quem é. É alto o suficiente para o seu olhar estar acima de quase todos os olhares; mas não tão alto o suficiente para ser o mais alto. Talvez não haja o mais alto pois que, na verdade, apenas um poderá dizer: sou o mais alto. E, mesmo assim, poderá não ter disso conhecimento, impedindo-o de reclamar tão galardão. Havendo ou não um mais alto que todos os outros, esse um, não era ele. Era alto o bastante para que se sentisse acima dos demais, mas não tanto que, de forma cada vez mais frequente, alguém mais alto que ele passasse por si e o lembrasse que os havia mais altos e que para esses gigantes, ele estaria entre os mais baixos da Terra. Era magro; era. E aí, a latitude de conceito estava bem mais diminuída. Era magro, ponto final; e alto, ponto final. Não era bonito, mas também não era feio. Poderia até dizer-se que não assustava ninguém. Talvez assustasse uma criança estranhona. Mas essas, tudo assusta. Tudo menos as boas mães,...