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Partia de um pensamento vazio

Partia de um pensamento vazio, para um universo cheio de nada Num café decorado a frio, meio de clientes de expressão velada Tomaria o autocarro ou a nave espacial? partiria pelo seu pé Por entre ruas e estrelas; fenomenal! viagem de procura da fé Assalta a dúvida a cada esquina, para lá ou por aqui? Ainda me lembro dela tão pequenina, papá: chichi E ele mais crescido por dentro, mas por fora sempre menino Solta tantas palavras ao vento, para mudar o mundo viperino São tantos os sóis e tantas as luas que nos cruzam o olhar Tantos os passos por tantas ruas que me canso de andar E lá ao fundo ela aparece, em lampejos de Diana e Atena Um farol no mundo que guarnece o reino da fantasia plena

A Folha Branca

Lembro-me que, ainda rapazola, escrevia em papel. Então, as alternativas eram poucas. Ao papel e caneta tínhamos, papel e lápis, papel e máquina de escrever (mas não para todos) ou papel e pincéis (igualmente impraticável). Podíamos ser criativos e deixar registo nas paredes (de casa e/ou da rua), na areia do mar, nos guardanapos dos cafés (que no fim de contas é papel) ou simplesmente no vento que nos envolvia numa manhã fria ou nos temperava numa tarde quente. Quero dizer que, rapazola, tinha apenas papel para grafar a dor e a inconformidade da juventude. Não gostava de escrever nas paredes e nunca consegui apanhar as palavras que escrevia no vento. E nesses tempos, essas coisas dos PC's e tablets não tinham sequer atingido o patamar de sonhos. Como tal, e quando faltava a inspiração, culpava-se a folha branca, essa súcubo da prosa. Com efeito, a alva aridez da folha A4 era o terror do escritor e a sua melhor desculpa para não escrever. O vazio da inerte criatura, projetava-se ...

Transformação

Então diz-me lá; consegues transformar-te no que quiseres? Sim , consigo; mas com uma restrição importante. Qualquer coisa? Qualquer coisa, não; qualquer ser vivo; mas, como já te disse, com uma restrição importante. Pois , se te transformasses numa cómoda, iria ser difícil teres força de vontade para voltares à tua agradável pessoa. Sim , seria complicado. Posso pedir-te que te transformes nalguma coisa? Podes . Ok ; transforma-te numa borboleta; daquelas grandes, de um azul iridiscente. Aí é que está; em borboleta não posso. Mas disseste que te podias transformar em qualquer coisa. Sim , e posso; mas é aqui que entra a restrição importante; deves previamente compreender que a minha transformação é feita ao nível molecular; ou seja, não se trata de uma metamorfose ou uma habilidade de um qualquer extraterrestre dos filmes de ficção científica. Então ? A minha transformação implica uma reorganização integral de todas as moléculas do meu organismo; o que quer dizer, para responde...

Transporte…

--- Morro outra vez Como barco sem vela Só apagada --- Desilusão não Pai feliz pelo filho Humano e bom --- Urna nos braços Assim vai seu filho em Pai transformado --- Um carro dois pés Lestos pés e carro não Porque é de mão --- E Calçando folhas secas Lembrou-se como era bela E como Bela era a brisa que tocou o seu coração --- Calças as folhas Frias aos pés colando Amor nos passos --- Assim te olho Nua por entre lençóis De ondas brancas --- Sempre que comeu O pão que o Diabo Amassou, sorriu

– Dás-me Lume?

– Dás-me Lume? No momento em que os olhos se tocaram Arregalados, fizeram os corações subir ao cume Das suas existências vazias Onde os desejos não se esgotam nem param Onde todas as fogueiras são frias Onde os sentidos (sós) apenas exclamam E lá do alto sonharam Com uma vida repleta concreta discreta Cheia de pequenas alegrias Unidas por uma paixão secreta Polvilhada de ínfimas fantasias Pequenos blocos do imenso mundo que imaginaram Era o futuro naquele tocar de olhos Era um trazer para casa flores aos molhos, aos molhos Os corações bailavam Os estômagos torciam Os sexos pulavam Os lábios abriam Era um universo privado Era um mundo apenas deles os dois E depois? – Desculpa, Não fumo. – Obrigado. Então os corações tornaram ao mundo vazio e a disfarçada melancolia da discoteca entrou-lhes novamente pelos ouvidos e a batida voltou a suspendê-los como fios de marioneta… Então ela voltou-se, e com o braço esticado e a mão ainda no ombro do grupo com que viera: ...

Haiku e outros

E Calçando folhas secas Lembrou-se como era bela E como Bela era a brisa que tocou o seu coração --- (1) Calças as folhas Frias aos pés colando Amor nos passos (2) Assim te olho Nua por entre lençóis De ondas brancas (3) Sempre que comeu O pão que o Diabo Amassou, sorriu

O Criador

Cansado de vogar por sobre as águas E não ver o seu ser reflectido nelas Cobriu os altos de iridescentes fráguas E os mares se encheram de estrelas Assim se manteve envolto em astros Até se cansar da intensa monotonia Agitou braços imóveis como castros E as águas se encheram de alegria Tubarões caranguejos búzios e algas Carapaus barbos jamantas e peixes sol Corais bacalhaus camarões e lulas Kelp baleias anémonas e peixes lua Tudo isto observou com orgulho fátuo Cuidando ver neles seu espírito retratado Mas os bichos logo o deixaram estuo Ao ver tamanho grupo assim tão parado Como que contentados em apenas existir Por ali pairavam agrupados por género Sem precisão de lutar nadar ou até bulir Pacíficos seres numa paz de desespero Querendo ver o seu enorme ser reflectido Empurrou um cardumezito de peixinhos Para a boca cavernosa dum Lúcio distraído Que comeu um ignorando seus irmãozinhos Porque não os comes a todos de golpada Que tão mansos tos coloquei à f...