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Penedo

A fábrica De ser rochedo É atávica Ser penedo Nada mais tem que resistir. Sem outro propósito ou expectativa senão a de perdurar. Aguentar os ataques do mar, da terra e do ar. Estóico, seráfico, é o rinoceronte do reino mineral. Cumpre escrupulosamente o que dele se espera. Glorificam a sua perenidade, a sua autenticidade, a sua eternidade. Só os geólogos sabem que não é bem assim. Mas os geólogos são poucos e ninguém lhes liga.

Ruas

Não deve haver rua da minha cidade por onde tenha passado pela qual não tenha passado a pé. Passei desde as ruas mais pequenas como a Rua do Porto Santo, menos de cem metros de comprido e 3 de largura, no meio do bairro da Azenha, às Rua e Avenida da Boavista, todos os seus seis quilómetros percorridos, metade da cidade, neste e naquele troço, para cima ou para baixo, de dia, de noite, triste ou alegre. Muitas ruas me são caras, sejam por terem motivos de interesse arquitectónico e paisagístico duvidoso, como a Avenida Marechal Gomes da Costa, interesse comercial, como a rua das Flores, ou que foram marcantes de alguma forma na minha vida, como a Rua do Godim, que me levava da escola de volta a casa envolto em silêncio, mesmerizado pelos muros de pedra antigos. Já outras são especiais por aquilo que elas suscitam e que nada têm que ver com a rua em si, o seu nome ou as casas ou comércios que as compõem. É exemplo disso, a Rua Álvaro de Castelões. Mesmo tendo por lá passado muito pouc...

Heróis

Todos os heróis são involuntários Sai-lhes da mão a história Porque ao destino são contrários Alvo de honra e memória Por alto erguerem a sua espada Os cobrem de fama e glória São como vela ao vento enfunada Aríete ao destino lançado Findo o vento mais são que nada É o vento o fado dourado Que resgata o mortal do anonimato Seu destino é assim lavrado Retoma a vida em seu vulgar fato E vê todos os dias iguais E murcha e desespera em recato Junta-se aos homens banais Que trilham sempre pelo carreiro Sonhando voltar a ser mais Perto da morte e pela vida desfeito Percebe o Herói que a grandeza Lhe caiu na mão não se fez no peito — Chora herói nesta reta final Vê como tão mais feliz serias Vivendo como simples mortal Suas simples dores e alegrias Como saberia tão bem o vinho Tão fresco de prazer te encheria Se de mortal fosse teu caminho Sem a Ambrósia que tocaste um dia Se os Deuses não te pedissem que por uma vez Provasses o Paraíso Nada te seria...

19. O lago

A estrada era agora um grande lago azul e sereno. A berma era agora um relvado que de tão bem tratado se via muito verde e uniforme e envolvia o lago com largueza e frescura. Por sua vez, esta era orlada intermitentemente por bancos de jardim, candeeiros esguios de duas lâmpadas e pequenas edificações em pedra, sem função aparente que não fosse a de propiciar, às gentes e aos bichos, poiso para contemplação do lago. Os patos, as gaivotas, as narcejas, os gansos e os cisnes, os pardais e os piscos nas árvores, ora pastavam, ora nadavam, ora voavam em círculos, ora saltavam voando de árvore em árvore, ora dormitavam pousadas na relva, assentes num ou dois pés. O sol era agora tudo e a tudo e a todos afogava com a sua luz. Ele, deitado num banco, braço por cima da cara bloqueando a luz do sol, uma das pernas esticada no banco, a outra, pendente, dormia sentindo-se acordado. Sem que se apercebesse quando ou há quanto tempo, sentiu o peso de um cisne que pousara sobre o seu peito. Levan...

14. O padeiro

Adiante, um brilho áureo emanava da escuridão. Aproximando-se, pode ver detalhadamente a origem de tal fulgor. O chão que pisava, os riscos que o delimitavam, a mansão que ali se impunha – suas paredes e janelas, telhado e caleiras, muros e gradeamentos, relva e arbustos do jardim – eram feitas de puro ouro. Ouro seria banal, pois era trabalhado em filigrana delicada. E suas reentrâncias recheadas a safiras, rubis, diamantes. Até o rouxinol que, desperto, se preparava para docemente nos despertar, era de ouro e jóias. A corsa aninhada junto ao alecrim de ouro, de ouro era, matizada de platina. O sapo junto ao charco pintalgado de nenúfares feitos de rubis, tinha olhos de esmeralda e língua de opalas. Os ovos no ninho do pisco pertenceram a um tal Nicolau e, ninguém sabe como ali foram parar. Que formidável riqueza vive nesta casa! Que esplendor emana. Que fortuna antiga a deterá? Que génio foi capaz de produzir tamanha acumulação? Sai ao alpendre um homem, pouco mais que um rapaz, d...

Lições

11. Percorria a estrada com a cabeça de João Batista em cima da minha quando nos salta ao caminho um cão. Um diabo dum cão que nem era grande nem era pequeno e que ria à gargalhada. Não rosnou, ladrou ou ferrou, limitou-se a rir desabridamente enquanto apontava com a pata a cabeça do meu compagnon de route como quem escarnece e diz ser aquilo o mais ridículo que já viu na sua longa vida de seis ou sete anos. Por me deter, espantado com o duplo comportamento do animal, rir-se de nós, e por ser um cão que ri, ele aproveitou e sentou-se logo ao meu lado, desta feita como se sentam os cães e, enquanto amansava o riso, limpava as lágrimas com as patas e abanava negativamente o focinho. Era um cão rafeiro, de pelo baio muito curto, com as patas e a ponta da cauda brancas. Tinha as orelhas quebradas e caídas para a frente e olhos castanhos. O riso expunha lábios negros, assim como o dos leões. Mas sem os calafrios que felinos lábios causam a quem deles se avizinha, pelas razões óbvias, o cont...

O que eu gosto de ver o mar

O que eu gosto de ficar a ver o mar Com as ondas a quebrar devagar Num infinito rodopio de carrossel Que nos leva o cabelo e arrepia a pele Está muito cheio este ar deste mar Do ruído das ondas infinitas a cavar Covas e peelings na areia que aguenta Com complacência e fugir não tenta Por vezes é Jah que espraia claridade De norte a sul espalhando felicidade Outras chega de Asgaard o encanto Que cobre a praia com cinzento manto São esses os dias de esplendor tão manso Onde o moço da cidade sonha seu descanso Rodeado de prédios velhos e sem história Aquece-o a praia que guarda na memória