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Dez mil candeeiros

Há dez mil candeeiros na tua rua E dez mil portas iguaizinhas à tua Dez mil vasos em soleiras poisados Oferecidos por dez mil namorados Uma rua onde tudo é tão parecido Que parece um só canteiro florido E em cada casa uma rosa vermelha Que por amor revela sua centelha Dez mil corações clamam seu amor Dez mil peitos projectam seu rubor Apenas um coração por mim chama Dos dez mil desponta o que me ama E eu longe de ti preso na escuridão Guio-me para a tua rua pelo clarão Dos dez mil candeeiros enamorados Candente aos dez mil apaixonados Se quando lá chego é tudo parecido Pelas dez mil casas não vou perdido Pois das dez mil centelhas da rua Nenhuma outra brilha como a tua É o doce perfume que de ti exala Que me guia sem razão ou fala É a tua centelha que sinto sem ver Que me conduz sem me perder E chegado a ti logo me esqueço Da dor e da escuridão que mereço Do mundo do tempo me desligo Só contigo meu farol meu abrigo

Tu fugiste e eu fiquei

Tu fugiste e eu fiquei No lugar onde te amei Parado te vi partir Descrente em te seguir Partiste de um amor Que perdeu o seu calor Deixaste um casco frio Meu corpo ficou vazio O que havia começado Num gosto a rebuçado Que lambíamos sorventes Com os lábios dormentes Que era apimentado É amargo congelado Que foi doce sabor É agora pena e dor Ó que dia tão triste O dia em que fugiste Que tolo sem saber Sonhava em te perder Foi sonho foi fantasia Sonhei que te perdia Vivi sonho acordado Sonho ter-te ao lado Do que sou contigo Um sonho de amigo Corpo que é só metade Rosto sem identidade Não fugiste que és eu E te dou o que é meu Tu te dás toda a mim Corpo unido sem fim Uma só alma que ama Um só corpo na cama Uma vida vivida a dois Que acabará. E depois?

Porque és tão mau para mim?

Disse Deus a Moisés: – Verás apenas a Terra Prometida, não a pisarás. Moisés retorquir a medo: – Senhor, levei vida casta e devota a Ti. Porque me castigais? Deus, impacientado, responde secamente: – Pega lá nas três tábuas e, ao chegares junto do meu povo, logo o saberás.

Gostaria de começar pequeno

Gostaria de começar pequeno Um pirilampo em meda de feno Brilhozinho verde no escuro A esperança vagando no futuro E depois crescia só um pouco O arregalar do olhar do louco A luz fortalecia e amarelava Deixando a meda iluminada Sinto-me agora com mais força Esboço pinotes qual ágil corça Não é pirilampo nem pequeno Vai na curva ascendente do seno Como todos tem figura de gente Mas nele há um brilho latente Que lhe escurece toda a figura E lhe rouba de vez a ternura Ainda assim não desiste ou vacila Prende a respiração e logo cintila Algo em mim começa a lampejar No corpo hirto em riste a flutuar Como carro engrenado fico instante Esperando o coice que me leve adiante É só a luz agora e não há mais figura Que se veja na luz perdida na negrura Pois que tudo à volta é escuridão E faz o rebrilhar soar a traição Intrometem-se as mãos ao olhar Protege-se da luz que quer evitar É então que fujo para diante Impondo luz amor aterrorizante Solta-se a luz por todo o lado Sobra o pirilampo vazio ...

Prejuízo do ego

Digo-o com prejuízo do ego Que me sinto um cruzetado Que me pareço com um prego Que de frente parece de lado

É o sopro do teu corpo quente

É o sopro do teu corpo quente Que sossega a minha alma doente É o teu olhar límpido que me diz Que afinal é bom ser feliz Que vontade de me perder No limbo da sedução Xutar indolência e beber Da vida com devassidão Que desejo de esquecer O humano que há em mim Cortar-me de quem me quer Partir numa fuga sem fim Esta imensa frustração De saber que o que ouço Só existe na imaginação Deixa-me exausto e louco Faz a vida saber a pouco Ouvir o que mais ninguém Ouve ou vê e mais só fico Com medo de contar a alguém Mas vêm as vozes e puxam E rasgam em mil pedaços Mas vens tu costureirinha E bordas os estilhaços Do coração que estava Partido do amor perdido Que longe se julgava Do teu abraço estendido Quero dar ouvidos Aos que me querem matar Quero abraçar os perdidos Que me farão descarrilar Quero deixar a vida Antes e nunca depois De haver a vida vivida E não me ter a dois Porque és tu e só tu Que de trilho faz avenida E levantas o jugo que eu Levo e que é a vida

Complicado é ser simples

Complicado é ser simples Difícil é seguir a via fácil Eliminar o que é adereço Concentrar-se no óbvio Esperar apenas amanhã Esperar sem parar hoje Esperar sem esperar Aguardar aguardando Tremenda a complicação de ser Um ser que se quer simples Ricamente despojado da riqueza Que empobrece a vida Empurrado a mais ter Impelido a conseguir Tudo que houver e ser Infeliz a cada conquista Fulano morreu - Não somos nada Param as horas e pensamos nas Coisas simples que perdemos Para logo as atirar para trás Porque me puxam e empurram Em tantas direcções sem rumo Se há só um que quero seguir Mesmo à frente e inacessível Porque esperam de mim Que seja mais que quero Porque olham para mim E vêem mais que sou Quererei tão pouco? Serei tão amorfo? Ou é a preguiça que Me abraça? Não me vejo daqui a dez Anos senão como agora Este que sou e está E dez anos mais velho