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Triste é o poeta por se confinar ao homem

Triste é o poeta por se confinar ao homem. Preso está o homem por ter em si um poeta. Que te encaram, homem e poeta, com diferentes olhos. Uns para olhar e outros para te ver, Uns para te querer e outros para te tomar, Ambos para dizer que te amam. Com beijos nos calas, com abraços baixas nossos braços. O teu amor mata-nos, faz-nos esquecer de nós. És o doce jugo que plácidos envergamos. És o macio cajado que meigamente nos impele. És a rutilante argola, que nos guia da confortante solidão. Pois é o teu amor que nos mantém vivos. De ti, em ti, por ti. Só tu, pelo nosso amor, és o esteio da razão. Farol brilhante, Aquecendo os frios penedos, Iluminando as ondas, Relevando os escolhos, Desvelando os sentimentos mais profundos. Quando longe de ti estamos, E somos apenas homem e poeta, É em ti que pensamos, É por ti que a vida se completa.

Hoje acordei com vontade de me levantar

Ao sentir-me desperto, Acelerado pela luz que em mim entrava vinda da janela cuja persiana ficou em enrolado esquecimento, Cresceu em mim uma vontade tumescente que me impelia para longe daquela doçura que é o conforto absoluto de uma cama dormidinha, Onde a noite termina com um resignado regresso à vida. Agarrei-me a ela e para ela me voltei, Mas ela já lá não estava, Desaparecida, Deixou fria, A sua alma levantada. Frios estavam também os lençóis do lado dela, E frio estava o saldo da sua cabeça na almofada, Voltei-me de barriga para o ar e olhei a janela, Desanimado com a perspectiva de a perder para sempre: o seu sorriso; os seus beijos; os seus abraços; a nossa vida partilhada. Restava-me a vontade, De me levantar. Queria saber as horas, Saber qual a extensão numérica do desvio ao ritmo habitual, Hábitos analíticos enraizados na mais poética e madraça das almas. Mas não conseguia abrir os olhos. Pesavam-me as pálpebras cansadas, ...

Diferenças

Sabes a diferença, meu amor, entre ser e estar? Como passámos do que fomos ao que somos. A partir de que momento nos tornámos nós e deixámos de estar sós. Sabes a diferença entre a sede e o consolo, entre a fome e a saciedade? Ainda te lembras como distinguir entre a vontade e o desejo, o vazio de perder e a felicidade de encontrar. Sabes ainda, meu amor, distinguir entre os beijos meus e os beijos teus? O tempo fez-nos outros. O tempo, ora leve, ora pesado, foi tempo e deu-nos tempo para continuarmos a fazer o nosso próprio tempo e forma intemporal. Parece que nunca tanto, meu amor, passou em tão pouco tempo. Ainda te lembras, meu amor, de fecharmos os olhos e vermos como seria o mundo?

Penedo

A fábrica De ser rochedo É atávica Ser penedo Nada mais tem que resistir. Sem outro propósito ou expectativa senão a de perdurar. Aguentar os ataques do mar, da terra e do ar. Estóico, seráfico, é o rinoceronte do reino mineral. Cumpre escrupulosamente o que dele se espera. Glorificam a sua perenidade, a sua autenticidade, a sua eternidade. Só os geólogos sabem que não é bem assim. Mas os geólogos são poucos e ninguém lhes liga.

Ruas

Não deve haver rua da minha cidade por onde tenha passado pela qual não tenha passado a pé. Passei desde as ruas mais pequenas como a Rua do Porto Santo, menos de cem metros de comprido e 3 de largura, no meio do bairro da Azenha, às Rua e Avenida da Boavista, todos os seus seis quilómetros percorridos, metade da cidade, neste e naquele troço, para cima ou para baixo, de dia, de noite, triste ou alegre. Muitas ruas me são caras, sejam por terem motivos de interesse arquitectónico e paisagístico duvidoso, como a Avenida Marechal Gomes da Costa, interesse comercial, como a rua das Flores, ou que foram marcantes de alguma forma na minha vida, como a Rua do Godim, que me levava da escola de volta a casa envolto em silêncio, mesmerizado pelos muros de pedra antigos. Já outras são especiais por aquilo que elas suscitam e que nada têm que ver com a rua em si, o seu nome ou as casas ou comércios que as compõem. É exemplo disso, a Rua Álvaro de Castelões. Mesmo tendo por lá passado muito pouc...

Heróis

Todos os heróis são involuntários Sai-lhes da mão a história Porque ao destino são contrários Alvo de honra e memória Por alto erguerem a sua espada Os cobrem de fama e glória São como vela ao vento enfunada Aríete ao destino lançado Findo o vento mais são que nada É o vento o fado dourado Que resgata o mortal do anonimato Seu destino é assim lavrado Retoma a vida em seu vulgar fato E vê todos os dias iguais E murcha e desespera em recato Junta-se aos homens banais Que trilham sempre pelo carreiro Sonhando voltar a ser mais Perto da morte e pela vida desfeito Percebe o Herói que a grandeza Lhe caiu na mão não se fez no peito — Chora herói nesta reta final Vê como tão mais feliz serias Vivendo como simples mortal Suas simples dores e alegrias Como saberia tão bem o vinho Tão fresco de prazer te encheria Se de mortal fosse teu caminho Sem a Ambrósia que tocaste um dia Se os Deuses não te pedissem que por uma vez Provasses o Paraíso Nada te seria...

19. O lago

A estrada era agora um grande lago azul e sereno. A berma era agora um relvado que de tão bem tratado se via muito verde e uniforme e envolvia o lago com largueza e frescura. Por sua vez, esta era orlada intermitentemente por bancos de jardim, candeeiros esguios de duas lâmpadas e pequenas edificações em pedra, sem função aparente que não fosse a de propiciar, às gentes e aos bichos, poiso para contemplação do lago. Os patos, as gaivotas, as narcejas, os gansos e os cisnes, os pardais e os piscos nas árvores, ora pastavam, ora nadavam, ora voavam em círculos, ora saltavam voando de árvore em árvore, ora dormitavam pousadas na relva, assentes num ou dois pés. O sol era agora tudo e a tudo e a todos afogava com a sua luz. Ele, deitado num banco, braço por cima da cara bloqueando a luz do sol, uma das pernas esticada no banco, a outra, pendente, dormia sentindo-se acordado. Sem que se apercebesse quando ou há quanto tempo, sentiu o peso de um cisne que pousara sobre o seu peito. Levan...