Lembro-me que, ainda rapazola, escrevia em papel. Então, as alternativas eram poucas. Ao papel e caneta tínhamos, papel e lápis, papel e máquina de escrever (mas não para todos) ou papel e pincéis (igualmente impraticável). Podíamos ser criativos e deixar registo nas paredes (de casa e/ou da rua), na areia do mar, nos guardanapos dos cafés (que no fim de contas é papel) ou simplesmente no vento que nos envolvia numa manhã fria ou nos temperava numa tarde quente. Quero dizer que, rapazola, tinha apenas papel para grafar a dor e a inconformidade da juventude. Não gostava de escrever nas paredes e nunca consegui apanhar as palavras que escrevia no vento. E nesses tempos, essas coisas dos PC's e tablets não tinham sequer atingido o patamar de sonhos. Como tal, e quando faltava a inspiração, culpava-se a folha branca, essa súcubo da prosa. Com efeito, a alva aridez da folha A4 era o terror do escritor e a sua melhor desculpa para não escrever. O vazio da inerte criatura, projetava-se ...
Não deve haver rua da minha cidade por onde tenha passado pela qual não tenha passado a pé. Passei desde as ruas mais pequenas como a Rua do Porto Santo, menos de cem metros de comprido e 3 de largura, no meio do bairro da Azenha, às Rua e Avenida da Boavista, todos os seus seis quilómetros percorridos, metade da cidade, neste e naquele troço, para cima ou para baixo, de dia, de noite, triste ou alegre. Muitas ruas me são caras, sejam por terem motivos de interesse arquitectónico e paisagístico duvidoso, como a Avenida Marechal Gomes da Costa, interesse comercial, como a rua das Flores, ou que foram marcantes de alguma forma na minha vida, como a Rua do Godim, que me levava da escola de volta a casa envolto em silêncio, mesmerizado pelos muros de pedra antigos. Já outras são especiais por aquilo que elas suscitam e que nada têm que ver com a rua em si, o seu nome ou as casas ou comércios que as compõem. É exemplo disso, a Rua Álvaro de Castelões. Mesmo tendo por lá passado muito pouc...
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