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Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –10–

A noite permanecia tão escura como misteriosa, o nevoeiro tão denso como uniforme, propiciando o surgir de todo o tipo de receios, medos e alarmes. Mais do que a visão assustadora de uma catástrofe eminente ou a face terrifica de um malfeitor como os que havia deixado para trás ou mesmo o galope temível de um animal, era a ausência de qualquer estímulo sensorial que o deixava, a princípio, incomodado e, pouco depois, e em crescendo, atemorizado. Se nada fizesse, entraria em breve num estado paranóico, condição psíquica contraproducente ao desígnio que o movia. O facto de nada ver, nada ouvir, não sentir sequer o fresco da noite na face ou do nevoeiro nos ombros, afectavam-no pela primeira vez. Sentia-se perdido e desperado e olhava e farejava e palpava em volta por referenciais, pistas, alarmantes que fossem, que lhe tirassem da alma a sensação de estar sozinho no mundo. Mais do que um tremor de terra, um assassino com um machado em riste ou um leão correndo para mim de boca aberta, er...

O Guardador de Porquês

Jacinto guardava os porquês que encontrava nas pessoas nos acontecimentos nos dias e nas noites. Dominava a magia de ver para lá do óbvio e do circunstancial apresentando-se-lhe o porquê das coisas de forma tão clara e linear como ao mago é simples agitar lenços e deles fazer surgir brancas pombas que voando espantam a assistência. Como se não fosse suficiente tamanho dom Jacinto era capaz de neles pegar e guardar catalogados num frasco de fino cristal que trazia consigo. Tão fino e delicado era o cristal que tudo deixava passar sem mácula de distorção provocada por espessura ou concavidade irregulares. Tão pequeno era que nele tudo cabia sem que nada se perdesse num canto escuro ou numa gaveta emperrada. Os porquês aí guardados davam a Jacinto um á-vontade e postura únicos entre os homens. Tamanha biblioteca em conjunto com os porquês dos que o rodeavam e os seus próprios porquês desvendados permitiam-lhe ver mais longe e entender o que para outros não passava de extemporaneidade ou s...

O Orbitador

A 12 de abril de 1981 o maravilhoso Eurico da Fonseca comentava o início do que seria uma das maiores aventuras e desventuras da história do século XX. Fazia-o com a solidez dum conhecimento adquirido através da perdida arte de estudar afincadamente e consolidado pela experiência e trabalho; a par, uma voz invulgarmente clara e sonante para quem não era profissional da voz e um domínio da língua materna robustecida pela leitura dos clássicos. Um senhor! Os comentários apocalípticos ficariam a cargo da Adelina , prima solteirona do meu pai e inesgotável fornecedora de já então velhos fascículos d'O Mosquito que, 30 anos volvidos, guardo escrupulosamente numa caixa, permitindo apenas relances a filhos e visitas da casa. Era o dia do lançamento do Orbitador, o Space Shuttle Columbia. Estava bom em Cabo Canaveral, tempo limpo e quieto. Em voz de filme, a contagem decrescente foi levada a termo e a pesada máquina libertou-se, pesadamente da Terra. Observei tudo em silêncio reverente e ...

Manual reeditado

O Manual do Suicida foi reeditado, em edição aumentada, dois anos após a sua primeira edição. Pode ser comprado nas livrarias Wook e Bookit. Se não o tiverem em stock, peçam que eles mandam vir mais. Pode também ser comprado online, em www.ediumeditores.org. Não há razão para dizeres que não tens porque não encontraste.

O meu coração vive como flor

O meu coração vive como flor Longe do caldo dos dias iguais Que me puxam para ao estertor De repetir cenas tolas e banais É o mundo que vem de encontro Ao delicado coração agitado Dá com um pau e faz escombro O que era ritmo compassado passa a ritmo fibrilhado Perde o seu vigor esta flor Verga seu caule e esmorece Pétalas perdem seu rubror É o coração que estremece Parecem assim ganhar os dias Em que nada se faz ou se vence As horas são como do pão fatias Que enfarta mas não convence Já me vejo perdido em um dia Maior que toda a minha vida Tão longo que fim não lhe via Tão cinzento que deixa ferida Chegam vozes de todo o lado Dizendo que assim é pouco E que o que faço está errado E melhor seria clamar louco Fecho os olhos e de pé atras Como se hesitasse por medo Como se tapasse que é atroz Como se fugisse ao arvoredo Hesito em começar a ver a vida Tapando os olhos ao seu furacão Fujo dela como se fosse bandida Que me quer roubar o coração Medo claro está, desdém decerto Fuga à razão de...

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –9–

A dada altura, adiantada a caminhada, o nevoeiro deu mostras de querer levantar. Não se ia embora, apenas se tornava menos denso, o suficiente para o deixar ver as bermas da estrada com maior nitidez. Nelas, acocorados junto a cada postalete reflector, aquilo a que, apenas por seus olhos grandes e encovados reflectirem mais que os postaletes reflectores, tomaríamos como pessoas, pois por estarem tão mirrados e tão cheios de chagas, veríamos como cão sarnento, despejo ilegal, saco d roupa velha atirado de um carro; um homem, uma mulher, uma criança, um velho. Eram só quatro, mas muitos mais lhe pareciam, pois grande era a sua miséria, e tão presente era sua a dor que quis acometer-se do seu pesar, tratar as suas chagas, lavar-lhes a cara e dar-lhes de comer, mas não conseguiu. Antes os viu todos imundos, todos desdentados, todos burros, todos maus. Como surgiram assim, de repente? Um desses vermes nojentos, uma mulher a cheirar mal, desdentada, com peladas no que foi cabelo preto de ...

Haverá lições a reter da vida? Pode aprender-se com o passado? Quem são os que olham para trás e temperam decisões com memórias? –8–

Conduzia muito concentrado. As duas mãos no volante, olhos presos à estrada em frente. Só a deixavam quando olhava pelo retrovisor, para ver a estrada atrás. Olhava muito pelo retrovisor. O que era de estranhar: Não encontras o que procuras no meio da noite, numa estrada que em não passava um único carro em horas ou dias, sei lá, depois daquilo das onze horas. Quanto tempo terei lá estado? Estiveste lá metido três dias. Pois estive; vejo agora que qualquer um deles tomou nove pequenos almoços e três snacks; usaram a casa de banho várias vezes, mas em três dessas vezes demoraram significativamente mais tempo. Mas não dormiam. Não; alturas havia que pareciam olhar para lá das luzes, como se procurassem a estrada. Mas nunca dormiam. Pensa melhor; se pareciam não dormir é porque andavam adormecidos. Sim; dormiam o tempo todo; nunca acordaram. Uma acordou; que lhe fizeram? Se não sabes, não sei. Pois. Sais aqui. Continuas a conduzir apesar de tudo. Sim; apesar de tudo, continuo. Obrigado e...