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A dúvida

imagino que os homens temem e destratam as mulheres por nunca saberem se elas querem ser a mãe dos filhos deles ou que eles sejam os pais dos filhos delas.

Há uma aranha na minha casa de banho

Há uma aranha na minha casa de banho Escondida entre a torneira e o azulejo Vive no medo do seu pequeno tamanho Por isso só no sossego da noite a vejo Faz uma teia pequena e sua forma é tal Que qualquer bicho que tolo por ali passe Percorre descontraído um caminho fatal Pois não há nada que a aranha não cace Quando a casa está escura em sossego e paz E os meninos dormem felizes e enroscados A aranha em corrupio pelo rabito traz O fio que compõe na teia os fios rasgados Traças, moscas e muitos bichos-de-prata Encontram aqui o triste fim da existência Mas não condeno a forma como os mata Pois não há maldade mas só sobrevivência Vive aranhinha entre a torneira e o azulejo Num canto perdido da minha casa de banho Esquece o mundo lá fora e renúncia o desejo De seres a aranha que esquece seu tamanho Calma lá aranha que eu nunca te farei mal Foi apenas um suspiro que foi ter contigo Sou teu servidor muito dedicado o mais leal Nada disse a ninguém que fizeste aqui abrigo Vejo-te às vezes tão q...

A falta de sentido

Poderá a escrita valer por si própria? Poderá o texto ter valor meramente estético? Não ser portador de mensagem, não contar uma história? A promoção da saúde é boa para quem toca alaúde. Os fornos Ramalhos nunca deveriam estragar soalhos. E aquele homem que passava muito tempo nas paragens, nunca ninguém o viu entrar ou sair do autocarro. Numa mão segurava um guarda chuva (fizesse sol ou fizesse chuva), na outra, sustinha uma saqueta de plástico, meia enrolada, apertada pela boca. Um rapaz passava sempre pela montra de trás da tabacaria que dava mais compostura à paragem e fazia dela mais do que um cais de embarque e desembarque. Ali se comprava tabaco, senhas do autocarro, chiclas e rebuçados, jornais revistas – também aquelas na montra de tras que o rapaz não se atrevia a comprar –, isqueiros e fósforos, lenços de papel; as revistas de novelas, de mexericos, de carros; a Dragões e os jornais desportivos; vendia brinquedos – não que alguém os comprasse –, carrinhos e bonecas; ah, hav...

A razão da escrita

Foram as correntes privadas de candelabros que pendiam das abóbadas do convento de Mafra que me fizeram escritor. Não foi a escrita dura sobre gente dura em Levantado do Chão, nem o humor velado, quase inglês, d'O Evangelho Segundo Jesus Cristo e de Caim, nem os amores de Blimunda e Baltazar, nem as almas que recolhiam. O que me fez escritor foi a janela que Saramago abriu em mim e me deixou ver aquelas correntes baloiçando, animadas por mãos criminosas, perdidas no silêncio do Templo, dizendo aos frades estremunhados: " foi por pouco, foi por pouco ". Sem desrespeito pelos que sentem a perda do marido, do pai, do amigo, eu que não o conhecia senão pelo seu legado, não sinto pena nem dó. Rejubilo por saber que se extinguiu um homem que não viveu em vão. Este homem marcou, faz diferença no mundo; faz rir, faz chorar, despertou consciências, paixões e ódios; por ele e contra ele se lutou e luta. A morte é irrelevante à sua vida. Saramago vive.

Coisas há que a escola nunca ensinará

Nem deve. Contava-me um amigo que quando um caçador incapacita uma presa e um segundo caçador a mata, este entrega a presa ao que primeiro disparou, recebendo dele um cartucho. Este acto de cortesia um de muitos do código de conduta da caça, não poderá nunca ser ensinado na escola. Em primeiro lugar, por razoes óbvias. Embora para alguns fosse motivo de gáudio, o manejo e emprego de armas de fogo em recinto escolar, tal medida faria torcer o nariz, o bigode e demais pêlos, a muitos pais e educadores. Em segundo lugar, porque estas coisas são para passar de pai para filho, de avô para neto. São aprendizagens pelo exemplo, em que palavra alguma é trocada, explicação alguma é fornecida, onde a razão do costume é cabalmente explicada pelo bom senso, pela educação e pelo respeito pelos outros. Desprezo a caça desportiva, mas vejo neste e noutros preceitos que a cultura de contratualização de serviços esqueceu, importantes alertas: entregar à escola a educação dos nossos filhos é, ao não lhe...

Apresentação do livro "Manual do Suicida"

Vou estar no Sábado, 29 de Maio às 17h00, no Museu do Douro – Peso da Régua, para apresentar (e autografar) o " Manual do Suicida ". Apresentação integrada no III Encontro "Sementes de Leitura e Artes" . Uma promoção da Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti. Co-promoção do Museu do Douro – Peso da Régua. Conto com a tua presença. Mais informações em: www.esepf.pt .

Nada é mais triste que um céu azul

Nada é mais triste que um céu azul Azul de ponta a ponta sem mácula Que se lhe aponte só e sempre azul Nem mesmo o sol que é um crápula Egoísta que brilha tanto que ofusca Tira tanto quanto dá e não se deixa Amar nem tocar por quem o busca É muito enfadonho o dia bom porque Ausentes mistérios para eu desvendar É igual de ponta a ponta sem destaque Sem nuvens nem sombras para amar Venham então as nuvens das cerradas Às de algodão em rama em camadas Brancas cinzentas pretas ou douradas De manhã ou pelo fim do dia reveladas Espraiem-se as sombras pelas paredes Estiquem-se em refrescantes verdes Fazendo o fresco milagre de nos dar Um sítio ameno para do sol escapar Dia feliz o dia em o sol não é o juiz Vida contente se se esconde da gente As nuvens desfiadas fazem-me feliz Num tempo sem horas de presente Os fios de luz bordados em cima do mar Perto de mim e impossíveis de alcançar Elevam-me para lá das nuvens nos céus Coladinho ao que quer que queira deus Morre o sol por hoje e ficam as nu...